sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A Mudança e as Listas de Sempre

Infelizmente a RST Vídeo onde eu trabalhava fechou. Outras lojas estavam fechando e a hora da minha segunda casa também chegou. A desculpa de sempre é que a pirataria está tomando conta da casas dos brasileiros cada vez mais e as locadoras têm um público cada vez menor. Pode até ser, mas ainda, felizmente, não é um estado tão alarmante, já que a RST Vídeo em que eu trabalhava tinha um fluxo até que razoável de locações, mas também não sou especialista no assunto então não tenho estatísticas à mão para expor fatos.
Mas eu fui transferido para uma loja maior e a antiga RST deve ter virado um bar ou uma lan house.


No novo estabelecimento, que agora usufrui dos meus árduos dias de labuta, eu começo umas dez da manhã e saio lá pelas quatro e meia, cinco da tarde. Como o meu novo chefe é bem sossegado e ele mesmo abre a locadora, tenho essa, digamos, flexibilidade de horário. E ele também não fica muito tempo por lá, e vai andar por aí gerenciando outras lojas da franquia e sei lá mais o que. Então posso dizer que pouco da minha rotina mudou, só uns dez minutos a mais de buzão.


Junto comigo, “abre” a locadora um cara chamado Eduardo que é bem quieto e gosta de zombar das piadas do Luís, o chefe, depois que ele sai, nas quais temos que demonstrar aquele profissionalismo dando uma risada de cortesia, mas quem não faz isso, não é verdade?


Continuando, o Eduardo tem esse jeito meio de saco cheio e fala somente o necessário para demonstrar o mínimo de simpatia comigo e com os clientes. O que para mim não é ruim, nem desagradável, porque eu sei o quê é ouvir merda várias horas por dia. Enquanto trabalhei na locadora menor tinha um cara que às vezes, nos horários com mais movimento, fazia turno comigo e que não sabia nada de nada e são essas pessoas que mais falam.


Nesses últimos dias essa foi a maior, senão a única, conversa que tive com o Eduardo:


- O quê que você está ouvindo? – eu perguntei.

-Oi?

Indiquei na minha orelha para sinalizar o fone, com jeito de pergunta.

-Ahnn. É Flaming Lips.


Parece engraçado, mas nunca conheci um pagodeiro que trabalhasse numa locadora. Parece me que é um emprego destinado à nerds ou roqueiros aposentados de suas bandas. É como jogador de futebol, acho que nunca ouvi falar de um que fosse fã de Slayer ou Megadeath.


-Hum, conheço pouco.

-Você não curte?

-Não, é que não conheço mesmo. Passou um show deles uma vez na MTV onde eles tocaram War Pigs e Bohemian Rhapsody, então por causa dessas músicas, eu acabei assistindo o show. Depois li que é uma banda bem conceitual e muito boa.

-E é mesmo, é uma das minhas favoritas.

-Acho que Bohemian Rhapsody é minha música favorita.

-Como assim? – ele perguntou.

-Como assim o quê?

-Cara, é quase impossível ter uma música favorita, música é meio que coisa de momento, então definir somente uma entre milhares é generalizar demais, você deve ter uma de cada estilo ou banda, pelo menos.

-È, pode ser, mas...

-Você as separa em posições?

-Não, nunca parei para pensar em um ranking, quer dizer acho que já, mas nunca chego em conclusão alguma.

-Mas é claro, né cara. Existem muitas músicas e você as ouve com muito mais freqüência do que vê um filme ou lê um livro. Às vezes você acaba em uma semana ouvindo bastante uma música e depois acaba até esquecendo dela.

-Mas eu também não fico ouvindo muitas e muitas músicas diferentes. Tenho minhas bandas preferidas e acabo ouvindo mais elas mesmo, mas às vezes dou uma fuçada para descobrir coisa nova. Quer dizer nova pra mim, porque o que eu mais ouço é música antiga.

-Porque só às vezes? – ele disse.

-Olha cara, algum tempo atrás eu procurava muita coisa, e ouvia muita coisa, porque eu tinha essa gana de saber muito. O motivo eu não sei direito, acho que eu gostava de ir atrás e ler sobre música, cinema e outras coisas. Ainda acho legal. Antes disso, quando era mais novo, um moleque, alguém mostrava ou falava de uma banda que eu não ouvia, eu invariavelmente falava que era uma merda. Depois fui ver que estava sendo meio tonto.


Pausa para atender um cliente.


-Uma vez – eu continuei – meu primo colocou para que eu ouvisse a Starway To Heaven, e eu comecei a ouvir aquela introdução com o violão e flauta e acabei dizendo que não tinha gostado e perguntei como aquela música poderia ser um clássico do rock.

-Putz, cara!

-É, eu sei, mas eu era ainda um jovem Padawan com muito a aprender e uma melodia mais bem elaborada no meio do barulho que meus ouvidos estavam acostumados me causou estranhamento. Estava numa fase Ramones e Nirvana.

-Mas depois você começou a gostar de Led?

-Muito, mas também não deixei de gostar de uma sujeira punk, mas só que menos. Porque como eu disse, comecei a ler, ouvir e ver muita coisa. Então fiquei meio perdido e só depois comecei a ver o que eu realmente curtia. O que também aconteceu com os filmes.


Assisti à vários filmes meio que como uma obrigação. Assisti filmes clássicos e famosos só para depois poder dizer que, eu tinha visto um filme da Marlyn Monroe ou do Alfred Hitchcock, entre outros. Acabei passando para frente pedaços de Apocalypse Now e Laranja Mecânica quando os assisti pela primeira vez. Eu sei que foi uma grande besteira, mas que depois foi reparada com a devida apreciação destes clássicos, um tempo mais tarde.

-Hehehehe, falou bonito. Mas então quais são os filmes que você mais gostou depois de tudo isso?

-Não sei bem. Tem uns que eu gosto muito, mas para fazer um ranking, eu acho que existem vários fatores a serem levados em conta.


Por exemplo, no caso dos filmes, você tem que assistir pelo menos três vezes a um filme para colocá-lo em uma lista de favoritos. Uma para conhecer, outra para rever e uma terceira para ter certeza. Aí sim você pode dizer que gosta mesmo dele. E eu acho também que você tem que diferenciar os seus favoritos e os que você acha que são os melhores filmes de todos os tempos, porque as pessoas às vezes se confundem com isso.

Às vezes você gosta muito de um filme que por muitos é considerado uma merda, mas é o seu gosto e pronto, acabou. Mas se você abre uma discussão de “Os Melhores”, as pessoas vão ter o direito de discordar.

-É verdade. Acho que eu vou tentar fazer minha lista de filmes – Eduardo disse.

-Pra passar o tempo?

-Também, mas eu acho que deve ser um bom exercício de introspecção.

-Hehehe. Você é da linha do você é o que você gosta?

-Não totalmente, mas acho que essas coisas importam um pouco na hora de definir nossa personalidade.

-Pode ser... Nossa, ficou meio Alta Fidelidade esse papo.

-Alta Fidelidade?

-É um filme baseado em um livro em que são discutidas essas idéias.

-Nunca ouvi falar.

-Pode anotar aí que é bom.

Aí a gente começou a fazer as listas, mas no final do dia não conseguimos chegar à um maldito veredicto, em nada.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Quando A Música Faz Muita Diferença - 2 - Sem Destino



Filme símbolo dos movimentos liberais e contra-culturais do fim dos anos 60 e começo dos 70 nos EUA, Sem Destino (Easy Rider) se tornou um dos filmes de maior saldo positivo de todos os tempos (teve um orçamento de cerca de 300 mil dólares e arrecadou mais de 50 milhões) e mostrou ao mundo como era impossível viver fora dos costumes e regras morais impostas pelas mesmas pessoas que se vangloriavam de viver num país livre.

A música que acompanha os créditos iniciais do filme, Born To Be Wild, caiu como uma luva aos motoqueiros, personagens principais do filme, e se tornou um dos maiores hinos do rock, porque quem gosta ou pelo menos conhece um pouco do bom e velho estilo das guitarras distorcidas, já ouviu pelo menos uma vez os gritos libertários do Steppenwolf.

Dá até vontade de pegar uma moto e sair à procura de si mesmo e de sentir a liberdade de não ter problemas e preocupações, que nos impeçam de ir e nunca mais voltar.


Vídeo:


Twin Peaks


"... e então né ... Vocês viram que a Dercy morreu?"



Nunca fui de seguir seriados.Ter que assumir esse compromisso televisivo de toda semana, em certo dia e horário estar na frente da tv assistindo e esperando por um longo desenrolar de meses de história, que aos poucos pode ficar cansativa, não é do meu agrado.Se diário o seriado, então se torna quase impossível perder um bendito episódio. Mas isso não quer dizer que nunca assisti alguns episódios de boas comédias como Two and a Half Men e That '70s Show e até assisti a primeira temporada de Lost. Um amigo me emprestou os dvds, na época em que o seriado era moda. Na segunda temporada fui perdendo o interesse, sabendo que teria ter que esperar anos até o fim da odisséia dos ilhados. Não tenho muita paciência para essas coisas.


Depois de ler em alguns sites e revistas sobre o seriado e sobre a obra surrealista de David Lynch, me interessei por Twin Peaks.
Seriado do início dos anos 90 que até alcançou uma boa popularidade na época de seu lançamento, tornando-se cult anos depois. Como me interesso por policiais e ficção (sou fã de Arquivo X. Este, junto com Chaves, que esqueci de mencionar, foi um dos seriados que mais assisti) e com o todo o alarde em relação ao seriado que prometia misturar mistério, investigação policial e devaneios imaginativos da mente perturbada de Lynch, resolvi alugar o box da 1° temporada de Twin Peaks.
Só assim mesmo para acompanhar um seriado. Só tinha feito isso quando aluguei duas temporadas de Arquivo X e uma do Batman Animated Series. Esse ato, além de tudo, ainda pode se tornar um desafio de resistência, mesmo gostando do que se está assistindo, para dar conta dos 1000 minutos, que geralmente compõem uma temporada de um seriado, em 5 ou 6 dias de locação.


O bom é que Twin Peaks é um seriado de apenas 30 episódios, o que deixa a história mais concisa, dividida em uma temporada de 7 (e um piloto) e uma segunda de 22 episódios.Essa divisão deve ter uma explicação, na minha opinião. A série começou a fazer sucesso e os executivos, da emissora que a produzia, quiseram alongar a segunda temporada. A mesma coisa que acontece com sagas milionárias que desenrolam suas tramas em vários filmes que vão perdendo a qualidade progressivamente.
Mas aí que a coisa foi pro brejo. David Lynch saiu no começo da 2° temporada e voltou para encerrá-la quando já era tarde.


A série gira em torno do assassinato de Laura Palmer, a garota popular da cidade, que é encontrada embalada em plástico e para investigá-lo o FBI manda o agente Dale Cooper. Com técnicas nada usuais e visões que vêm a ele em sonho, Cooper ganha confiança da polícia local e vai descobrindo que a cidade esconde muito por detrás de sua pacata fachada.
O melhor da série é a criação de personagens e situações bizarras que Lynch nos apresenta, sua especialidade, e isso se torna o charme do seriado.
Não é uma saga perfeita, mas acima da média e das mesmices dos seriados policiais.


Recomendações RST Vídeo, Filmes "Viajados”:

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças
Eraserhead
Videodrome
O Grande Lebowski
Donnie Darko
Medo e Delírio
Akira
Tommy
Brazil - O Filme
Mas o troféu é de Naked Lunch com certeza!!!